quarta-feira, 18 de abril de 2012

Working with Robin Lim

7 da manha, despertador! Aula de yoga à 8. Nova professora, mais uma mulher encantadora, mais uma aula fabulosa! Ao longo destas 3 semanas, o meu corpo evoluiu e a minha mente resiste menos e descansa mais!

9h45, hora de um fabuloso pequeno-almoço: sumo de papaia e torradas com manteiga de orquídea! Enquanto me deliciava com a refeição, definia na minha mente o programa do dia: "A seguir ao pequeno-almoço, vou dar um mergulho na piscina. Devoro mais umas paginas do livro "Un cours en miracles" e dou o "bom dia" ao namorado vis skype. Depois vou almoçar e de seguida, a missão definida ontem com ajuda da mae: gastar dinheiro comprando alguma coisa para mim!" (Pois parece que tenho um ENORME problema nao em poupar, mas em gastar dinheiro! Assunto para outro post.)

Enquanto a minha mente se preocupava com tudo isto, uma senhora "estacionava" a bicicleta no parque do café. Dos seus cerca de 60 anos, pele queimada e enrugada de tanto sol e de vestuário colorido qual baba cool, ela entrou no café carregada de sacos, falando alto e rindo para toda a gente. Oh nao! - pensei - mais uma Mme Bijoux chanfrada da corneta! So espero que nao se venha meter comigo!

Mas, como atraímos aquilo em que pensamos e eu pensava nela, nao é de admirar que ela tenha vindo sentar-se na mesa mesmo ao lado da minha! E que tenha começado a conversar comigo! E que por fim se tenha sentado à minha mesa!

Chama-se Mala, é Havaiana e é uma midwife. Ha varios anos que vem para Bali por alguns meses como voluntária na Yayasan Bumi Sehat (Healthy Mother Earth Foundation), criada pela famosa Robin Lim!

Robin Lim é uma americana residente em Bali que recebeu em 2011 o prémio "CNN Hero of the Year". "Mother Robin" tem ajudado milhares de mulheres indonesianas pobres a atravessarem uma gravidez e um parto saudaveis. A fundaçao presta cuidados pré e pos-natal gratuitos e auxilia o parto natural, utilizando técnicas para alivio da dor, diminuição da taxa de cesarianas contribuindo assim para mamas e bebes saudáveis! 

Mala pergunta-me de onde venho e o que faço, questões comuns entre viajantes. Que sou portuguesa, que vivo na Suiça e que sou fisioterapeuta. Diz que precisa da minha ajuda, que ha um menino que esta com problemas e pergunta se posso ir vê-lo à clinica da "Mother Robin"! 

20 minutos depois, eu estava na clinica, de boca aberta, vendo mulheres contorcerem-se com dores de contracçoes, ouvindo outras berrando e fazendo força durante o parto, pegando em recém-nascidos ao colo e tudo isto entre dezenas de casais chegando e partindo de mota com os seus bébés para as consultas pediatricas gratuitas. De repente vejo Robin, com a sua grande trança e aquela sua expressao calma e bondosa, deslocando-se rapidamente para um dos quartos: "She's having the baby! Let's go!" - diz em alta voz, seguida por uma série de midwives voluntárias que chegam de todos os cantos do mundo!

"Let's see the little boy, Sofia!" diz-me Mala. Sigo-a. O "little boy" tem 2 anos, e nao tendo um diagnostico preciso,  apresenta um nítido atraso de desenvolvimento motor, precisando de muita ajuda para conseguir fazer alguns passos! So sei que minutos depois, eu estava com ele no chão, tentando fazer algo semelhante a um tratamento de fisioterapia em condições que eu nunca vira! Precisava de colchões no chão, de jogos, de brinquedos, de bolas e balões! Ao invés disso tinha relva, pedras, arvores, flores, bichos e terra! De pés descalços, transpirando com o calor forte e húmido da "Terra dos Deuses", eu pensava no meu curso de Bobath e no que a professora me dissera, que o importante é trabalhar no ambiente próximo do doente, que nao precisamos das salas de terapia, que os jogos que utilizamos em terapia nao significam absolutamente nada para o paciente! Ora ali estava uma boa oportunidade para (tentar!) meter tudo isso em pratica!

Depois do "tratamento", seguiu-se um almoço com Mala, que me chama de "Sweetie"! Almoçamos e conversamos sobre as nossas vidas! Ela falou-me do ultimo marido, que morrera porque ingerira um germe existente em Africa e na Asia que o levou a uma morte lenta e sofredora! Eu falei-lhe do meu trabalho, da minha falta de crença na profissao que exerce, se farei realmente alguma diferença na vida das pessoas e da minha falta de crença em geral!

Diz-me para dar amor aos meus doentes, para lhes tocar com amor! Diz-me que use cor, que meta musica, que os faça rir, que faça tratamentos em grupo, que os leve a sair, que use animais e crianças para animar os seus dias! Diz que a minha missao nao é trata-los mas faze-los esquecer, nem que seja por uns breves minutos, da situaçao que vivem! "You are there to love them!". E acrescenta que, se nao sou feliz ali, que deixe o lugar! Que nunca se sabe até quando estamos neste nosso corpo e que portanto, devemos seguir o nosso coraçao e as suas paixoes; nao ha tempo a perder! Falamos ainda de Deus, do Universo, do Uno, do amor como a unica coisa real, da Era Dourada, de terapias alternativas, da morte (que nao existe!), do contracto que assinamos antes de virmos a esta vida, que vivemos o que escolhemos viver... 

As mensagens que os meus ouvidos recebem e que os meus olhos observam sao tantas que começo a sentir uma ligeira dor de cabeça, que me acompanhara o resto do dia! Muita informação para absorver e digerir!

De maneira que até sexta-feira, trabalho como voluntária "with Robin Lim", tendo fazer o meu melhor pelo "little boy"! O menino precisaria de fisioterapia constantemente, mas fisioterapeutas so em Denpassar e a preços inacessíveis para a família! Na fundação, nao se vêem fisioterapeutas voluntários; apenas médicos, enfermeiros e parteiras o que me diz que ainda ha muito a fazer! Em Bali, as crianças deficientes sao isoladas pela própria família, sobretudo por vergonha, o que nao contribui em nada para o desenvolvimento ja atrasado do "little boy". Hoje, conseguimos convocar familia e vizinhos para assistirem ao tratamento e ao que me pareceu, a criança nunca vira tanta gente junta torcendo por ele! Que sorriso lindo aquele! Amanha, amanha sera dia de piscina! O meu objectivo é transmitir o máximo de informação a Mala e à família do menino para que ele continue a ser estimulado todos os dias, mas o ideal seria mesmo encontrar fisioterapeutas voluntários!

Se alguém estiver interessado em voluntariar-se ou conhecer alguém que podera estar interessado, nao hesitem em contactar a fundaçao: info@bumisehatbali.org ou iburobin@bumisehatbali.org ou entao contactem-me se tiverem algumas questões que gostariam de ver esclarecidas primeiro! Se quiserem contribuir com dinheiro, a fundação agradece para poder adquirir material, medicamentos e melhores condições! 

La bonne nouvelle: uma nova clinica começara a ser construída ainda este ano, muito graças ao prémio recebido pela Robin, mas ajuda continua a ser necessária! Ainda hoje um casal de Australianos chegou com 3 sacos cheios de lençóis para bebes, barretinhos e ursos de peluche e ao que parece fazem algo semelhante todos os anos! Eita (como diria a Carol!), que ha gente boa neste mundo!

Escusado sera dizer que tenho o coraçao a abarrotar de gratidao! Mala agradece-me, mas quem agradece sou eu, por poder fazer parte, mesmo que por apenas alguns dias, de algo tao GRANDE, tao MARAVILHOSO, tao BOM! Nao estou a ajudar mais o "little boy" do que ele me esta a ajudar a mim, acreditem! E no fim de contas a vida é isso mesmo: criar relaçoes de troca, dando e recebendo, sem manias, sem posiçoes ou lugares a defender!

Dar, GRATUITAMENTE, porque o que se recebe em troca é nem mais, nem menos do que o INDESCRITÍVEL!  

A entrada da clinica.
 A foto nao mostra praticamente nada, mas a clinica nao é fisicamente muito mais do que se vê... telhados e chão! O resto é amor :)




quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sem "DEVIA"!

O dia de ontem nao foi propriamente preenchido e eu nao estava contente. Quer dizer, eu estava contente com o dia, nao estava era contente com o facto de ele nao ter sido preenchido! 

é aquela ideia derrière la tête que nos diz que todos os dias têm que ser espectaculares, preenchidos de emoções e acontecimentos únicos, sobretudo quando nos encontramos no outro canto do mundo... que temos que aproveitar ao máximo (eu conheço a mesma versão em varias línguas, "Sofia, aproveita ao máximo!" ou "Sofia, profite à fond!")! Mas o que é isso de aproveitar ao máximo?!

E por isso eu nao estava contente. Nao estava contente porque a minha mente falava que eu DEVIA ter feito isto, que eu DEVIA ter feito aquilo, que era SUPOSTO eu fazer aqueloutro e quando a mente fala demais, a gente deixa de ouvir o coraçao. E quando deixamos de ouvir o coração, a gente nao sabe mais o que quer realmente! Por isso ontem, ao final do dia, tomei a decisao de dizer chega ao "DEVIA"!

E nisto ele liga-me via skype. Falamos do nosso dia e ele insiste com a pergunta "E amanha o que vais fazer?". Digo que nao sei, que logo se vê e ai sinto uma ligeira irritaçao. A minha mente esta a querer dizer-me que eu DEVIA fazer qualquer coisa, mas eu nao quero ouvir, recuso-me a ouvir! E ai ela protesta ainda mais... mas eu nao deixo! CALOU!

Hoje acordei às 8 da manha, como quase sempre desde que aqui cheguei. Escolhi ficar na ronha "mamando" séries no computador até que o meu coração falou mais alto do que a minha mente! "Sofia, chega de computador! Estas a refugiar-te da realidade... estas por tua conta em Ubud, nao tens quaisquer planos para hoje e o dia prevê-se boring. So what?! Enfrenta!" E enfrentei! Lavei os dentes, a cara, meti o biquini e preparei-me para ir tomar o pequeno-almoço.

No caminho, cumprimento alguns dos trabalhadores da home stay que aguardavam pacientemente que eu deixasse o meu quarto para que eles pudessem limpa-lo e arruma-lo.

- What are you going to do today? - pergunta-me um.
- Oh... I don't know... but I would like to go see the elephants! - respondo.
- I can take you if you want!  - responde-me o mesmo. - I have motorbike, but I'm careful, do not worry! And I can show you some temples around Ubud if you like!
- Ok, thank you! - replico ainda nao convencida! - And your name is...???
- Eddie. Eddie Murphy! - acrescenta, colocando o rosto de perfil como que me mostrando as semelhanças com o actor americano.

Mais uns dedos de conversa e combinamos o trajecto e o preço. Visitar os elefantes e de seguida, Tirta Empul, o templo das aguas sagradas! Monto-me na mota agarrada ao "Eddie Murphy" e assim se inicia uma manha imprevisivel!


Chegada ao primeiro destino, um sarongue foi-me impingido à entrada! 
- Why do I have to put this on? - pergunto ao Eddie.
- Because it's a temple and you have to respect the place by using the same clothes balinese people use! 
Aceno afirmativamente com a cabeça sem perceber no entanto porque haveriam de colocar os elefantes dentro de um templo sagrado!

Começamos a andar, subindo e descendo escadas no meio de uma floresta tropical, ao som de agua deslizando por entre pedras e rochedos!




Ao mesmo tempo que procurava captar fotograficamente tudo o que presenciava, eu utilizava todos os meus sentidos em busca dos majestosos elefantes, mas nada!




E foi quando saímos do templo que resolvi lançar: 
- I thought we were here to see the elephants!
- Yes, this is the elephant cave! - responde-me Eddie.
- No, I mean the animals, the elephants! (so faltou mesmo iniciar uma mimica do bicho...)
- Oh!!!! You mean the elephant park!!!
- Yes!
- Oh, that is too far. Can not go with motorbike. Must go with car. I can talk to my brother tomorrow... he has a car!
- Ok, ok, no problem! - respondo.
- I'm sorry!
- Eddie, there's problem, really! I wouldn't have come to this wonderful place if it wasn't you! I'm really happy to have visited this place... it's beautiful!

As minhas ideias bem definidas sobre o programa da manha haviam sido graciosa e maravilhosamente alterados! O templo que visitei chama-se Goa Gajah, Bali's sacred elephant cave e tem origens no século XI. Julga-se que o local foi parcialmente destruído por um desastre natural e ficou submerso durante séculos até à re-descoberta em 1923. Ao visitar o local, muitos sentem-se regredir no tempo. Aqueles que o visitam para meditar, sentem-se facilmente mais calmos pela essência espiritual do local. Facto interessante é o de que duas das fotos tiradas no local estão repletas de orbs (presenças espirituais para os que acreditam).



Proxima paragem: Tirta Empul, um templo cujas aguas, criadas pelo Deus Indra, terao propriedades curativas. Eddie abandonou-me à entrada, alegando nao estar vestido correctamente para entrar no local. "I will wait for you here" disse-me, despedindo-se.


Entrei, sarongue impingido pela segunda vez nesta manha e assim que me aproximei, reconheci de imediato o local fotografado inúmeras vezes pela minha cyber-amiga Carolina Bergier.


Dirigi-me aos balneários para me preparar para entrar nas aguas sagradas. Biquini por baixo e sarongue por cima, cobrindo o máximo de pele possível para respeitar a cultura. Mas e meter o sarongue? Eu dava voltas e voltas com o pano e por mais tentativas que fizesse, saia sempre de rabo à mostra! Olhava ao meu redor perguntando-me como é que Carol havia conseguido fazer tamanha proeza até que, nao tendo outra escolha, resolvi pedir ajuda a uma jovem rapariga indonesiana que ali se encontrava. Felizmente, este povo esta sempre disponível para ajudar e num instante ela "enrolou" o sarongue à minha volta, tapando tudo o que deveria ser tapado. Ali estava eu pronta para iniciar o ritual!

Tentando nao chamar a atençao - rapariga ocidental viajando so se metendo no meio do povo indonesiano - larguei os meus chinelos na entrada do templo e meti os meus pés na agua. GELO! Prossegui. Agua pela barriga e toca a andar em direcção a uma das fontes livres jorrando agua sagrada!

E mal toco aquela agua com as maos, uma súbita vontade de chorar se apoderou de mim! Nao era tristeza, nao era medo, nao era desespero... eram as minhas primeiras lagrimas de GRATIDAO! Gratidao por estar ali, por poder viver aquilo, por sentir aquela agua correr-me nas maos! Gratidao ao Universo por me ter ajudado a chegar até ali, por nao me ter deixado desistir da ideia e por estar a cuidar sempre bem de mim nesta minha grande viagem!

Chorei sem ninguém dar por isso porque as minhas lagrimas se misturavam com as aguas sagradas. Fechei os olhos, uni as maos em jeito de reza, rezei um "pai-nosso" porque sim... e depois falei com Deus (ou com o Universo, nao é Carol?!). Primeiro, agradeci. Depois pedi. Pela minha familia. Próxima e afastada. Com quem me dou e com quem nao me dou. Pelo namorado maravilhoso e sua família. Pelos amigos. Pelos menos-amigos. Pelos que me magoaram e pelos que magoei. Pelos colegas de trabalho. Por mim. E no fim, outro "pai-nosso", porque sim! 

Terminando o meu momento, resolvi virar costas à fonte para receber a agua no topo da minha cabeça, bem ali no 7chakra e nisto abro os olhos para me aperceber de que atras de mim, uma fila de pessoas aguardava o meu lugar. Todas as outras fontes se encontravam livres e mesmo assim, todas as pessoas aguardavam em fila Aquela fonte onde eu me encontrava vivendo o Meu momento! Ninguém queria as outras fontes. Todos queriam a "minha" fonte! Deixei o meu lugar sem perceber o que se passava... olhei ainda para tras para me certificar de que tinha visto era bem real! Sim! Fila para a "minha" fonte; as outras fontes, vazias. Alguma coisa de muito especial e inexplicavel se passara certamente!

Sai feliz em direcção aos balnearios. A minha missão ali estava cumprida (ou pelo menos parcialmente, porque entretanto fui-me lembrando de muita coisa que gostaria de ter falado e que nao falei!). Como estava sozinha, nao pude fotografar o momento. Apenas aquele que lhe sucedeu!


Ainda nos balneários, feita num pingo, eu agradeci mais uma vez pela oportunidade de viver esta experiência maravilhosa! 

Reencontrei o Eddie ca fora e regressei feliz a casa! Acordei sem "DEVIAS" e fiz exactamente aquilo que o meu coração pedia! Resultado: sentimento de concretização, de felicidade, de amor e de MUITA GRATIDÃO! 

domingo, 8 de abril de 2012

Fuck, just do it!

7 da manha e o despertador toca. Horas de levantar, mas desta vez nao é o emprego que me espera. As 8 da manha, o rendez-vous (RDV) é no Yoga Barn para mais uma aula de yoga.

Como cheguei mais cedo - sim, que eu sou daquelas pessoas que chega sempre mais cedo aos RDV! - tive ainda tempo de mergulhar no maravilhoso livro "Contrats sacrés" oferecido pela minha querida SR.

Pequeno momento de leitura para iniciar de seguida a minha aula de yoga que, confesso, vai-se tornando mais suportável! Hoje ja so olhei para o relógio uma vez e embora a mente continue a divagar (é que até de um episódio de "Sex and the City" me lembrei hoje!), ja vou conseguindo distanciar-me dos pensamentos e observa-los passearem pela minha mente.

Aula terminada, hora de regressar ao home stay para um mergulho na piscina (sim, na minha segunda casa em Ubud tenho uma piscina!). Pelo caminho, resolvi parar na loja "The Bali Street Dog Fund", uma loja no centro de Ubud que, como o próprio nome indica, tem como objectivo angariar fundos para ajudar os inúmeros caes que circulam, abandonados e perdidos, pelas ruas da ilha. A ideia era passar, me deliciar com os cachorros bébés que por la se encontram e re-partir de sorriso nos lábios para o tal mergulho na piscina.

Plano furado!!!

Assim que me aproximo da porta, vejo uma cadela ja adulta com um daqueles focinhos irresistíveis! Entrei de imediato e fiquei alguns segundos num género de ante-camara da loja, entre a porta de entrada e um portão de ferro que impede os caes de saírem para a estrada.

Olhei para a cadela, que soltou de imediato um ladrar avisando a loja de que alguém ali chegara e que se empoleirou de seguida no portão com as suas patas dianteiras para me receber.  Mal acariciei o seu focinho, percebi que havia ali um problema! Do olho direito, nem sombras e o olho esquerdo apenas ligeiramente aberto! Enquanto a cadela, ainda empoleirada no portao, me lambia carinhosamente as maos, comecei a chorar descontroladamente!

A responsável da loja, apercebendo-se do meu estado, veio abrir-me o portão e mal entrei, larguei tudo o que trazia comigo e sentei-me no chão, acariciando o bicho com as maos e as lagrimas! Chorei durante os cerca de 10 minutos que ali fiquei no chao com ela, enquanto a responsavel procurava ignorar (ou talvez respeitar!) o meu estado!

O carinho e a gentileza que ela demonstrava ao lamber-me as maos davam-me mais uma lição de amor! As lagrimas surpreendiam-me mais do que qualquer outra coisa! Foram de tal forma instantâneas, genuínas e sobretudo inexplicáveis que era como se eu e ela nos tivéssemos encontrado novamente!

Muitas perguntas me ocorreram e comecei de imediato a pensar no que seria necessário fazer para a levar comigo para casa! Dirigi-me à responsável da loja e quis perguntar-lhe qual tinha sido o problema dela, mas o inglês ja por si tarefa difícil para mim, tornou-se ainda menos compreensível com lagrimas e soluços à mistura! Por momentos, envergonhei-me do meu estado descontrolado (Entao Sofia?! Recompoe-te!! Nao é situação para tanto!) mas o sorriso compreensível da responsável tranquilizou-me.! Que é um problema de nascença, que nasceu cega de uma vista e so vê 20% da outra, mas que esta bem, que de resto, é inteligente como qualquer outro cao e que ja tem uma casa à sua espera!

"Ok!", respondi sorrindo e soluçando ao mesmo tempo. Voltei para o pé dela e acarinhei-a mais uma vez, ao que ela respondeu com mais umas quantas lambidelas!

Caramba, quantas vezes resmungamos e mal tratamos os que estao a nossa volta so porque sim?! E ali estava eu, recebendo lambidelas carinhosas, sem qualquer amargura, raiva ou ódio de uma cadela que para além de cega, havia vivido perdida e abandonada nas ruas desta cidade! Se alguém ali precisava de amor era ela... mas a verdade é que sai de la com a impressão de que eu recebera mais amor do que o que dera!

Talvez por estar longe de tudo e de todos, talvez porque nao seja simples para mim viver esta experiência, talvez por tudo isto e muitas outras razoes que ignoro, sai da loja ainda a soluçar!

Eu e os animais.... vir a Bali esta a fazer-me recordar dessa minha grande paixão! Nova questão se coloca: que fazer com tudo isto?! Nao chegara de ignorar as nossas paixões genuínas para fit-in numa sociedade que nao é feliz?!

Como diria a minha P., "Fuck, just do it!"

sábado, 7 de abril de 2012

O bichao!


Era a minha segunda manha em Ubud. Acordei cedo e a caminho da casa de banho, algo chamou a minha atençao para o teto por cima do guarda-roupa ! Como vejo mal ao longe, aproximei-me mais e meti-me até em bicos dos pés para tentar perceber o que é que ali se encontrava. Demorei alguns segundos a perceber o que era e a recuar com as maos na boca tentando abafar um grito !

Por cima do meu guarda-roupa, na mesma divisao em que durmo, um bichao enorme (tipo vespa ou abelha, que eu nao sei a diferença !) e o seu vespeiro !!! Em muitos anos de Ribatejo, eu nunca, mas NUNCA vira um bichao daquele tamanho (tem à vontade o comprimento de duas teclas e meia do teclado do computador, seja la quanto isso for em centimetros !).

Assustada, imaginando-me a ser atacada por um batalhao de bichoes daqueles a meio da minha nao-tao-tranquila noite, corri a chamar a caseira, uma amorosa balinense, para que ela me tirasse o bichao e o vespeiro dali ! Agarrei nela pela braço dizendo-lhe « Come, come, I need to show you something ! », ao mesmo tempo que gesticulava para me fazer compreender, que o balinês nao é dotado para o inglês ! Assim que entramos na divisao eu apontei-lhe de braço muito esticado e olhos arregalados : « See ? », ao que ela me responde tranquilamente com um sorriso « Oh, no problem, I clean for you ! » ! (O QUE ?!?!- pergunto-me eu. Entao e sair daqui correndo em panico, nao ?!? Entao e ir buscar o insecticida mais forte que houver por estas bandas, também nao ?!?). Achando que era demasiada descontracçao para alguém que tivesse realmente percebido a gravidade da situaçao, voltei a agarrar-lhe no braço e puxei-a, ainda que a medo, para mais perto do bichao ! Nem uma pequena sombra de terror na cara dela ; a resposta foi a mesma « I clean for you ! ».

Sai para mais um dia de passeio com a quase-certeza de que quando regressasse ao meu quarto,  o bichao e o vespeiro continuariam là, que a caseira nao havia percebido a gravidade do problema, que se calhar bichoes daqueles nao matam balinenses mas que o português nao tem as mesmas resistências…

E quando voltei, escusado sera dizer que a primeira coisa que fiz foi dirigir o meu olhar para o teto por cima do guarda-roupa ! E ufff… nada de vespeiro, nada de bichao ! Afinal ela percebera tudo ! Estes balinenses têm uma capacidade incrivel de gerir com tranquilidade situaçoes de enorme gravidade !!! Sim, eu disse « situaçoes de enorme gravidade » !!!

E o episodio poderia ter ficado por aqui. Poder podia, mas nao era a mesma coisa :)

No dia seguinta acordo e, ou por automatismo, ou porque algo chamou a minha atençao, voltei a olhar para o tecto por cima do guarda-roupa ! Nao ! NAO !!! Nada de vespeiro, é certo, mas O BICHAO ESTAVA DE VOLTA !!!

Observei-o procurando desesperadamente pelo seu vespeiro e, ainda que com algum receio de ser por vingança atacada, senti uma ligeira tristeza ao aperceber-me do que o meu medo havia provocado ! Sem dor nem pudor, eu destruira (ou pedira para destruir, o que ainda é pior !) a casa do bichao ! A CASA ! E eu, estando longe de tudo o que me é familiar, até consigo imaginar o que isso é !

Com pena do bichao, resolvi nao chamar a caseira. Na minha mente, achei que uma vez que lhe haviamos destruido a casa ali, o bichao nao sentiria confiança para voltar a construir o vespeiro no mesmo sitio ! Sei là… digo eu…

Mas o bichao teimou !!! E nestes ultimos dois dias, ele sai e entra pelas grelhas em madeira trabalhada que existem por cima do guarda-roupa, atarefado com a reconstruçao do vespeiro que, devo dizer, avança a passos largos ! À noite, dorme agarradinho à casa semi-construida, como que protegendo-a. De dia, la vai ele… de volta ao trabalho !

Confesso que tive medo que me atacasse, assim por vingança sabem ?! Dizem que as abelhas (ou serao as vespas ?! nunca sei... ) atacam quem as atacar a elas, por isso porque nao esperar o mesmo do bichao ?! Mas parece que este bichao é diferente !

Durmo descansada (ok, nunca me esqueço de baixar a mosqueteira !), faço a minha vida tranquila (ok, vou sempre dando um olhito ao bichao e fecho a porta quando vou à casa de banho, nao va o bichao aproveitar essas alturas !), mas o bichao parece nao importar-se com mais nada senao com a construçao da nova casa !

O que o medo faz à gente !!! Achei que o bicho me poderia atacar e por isso ataquei-o primeiro ! E agora, com medo que ele me ataque por vingança, eu poderia, se nao fosse uma lamecholas com os bichos todos, voltar a ataca-lo novamente ! E ao que me parece, o bichao nao esta nem ai para mim!!!

Dou por mim a fazer o paralelo com situaçoes que vivo diariamente, nao com animais, mas com pessoas ! Quantas vezes ataco porque tenho medo de ser atacada ou magoada ou traida ? Quantas vezes deixo que seja o medo a tomar as rédeas da minha conduta ? Asseguro-vos que demasiadas vezes ! E quantas vezes nao sou também agredida pelo medo que sentem os outros ? A nossa vida seria tao mais bonita se vivessemos com menos medo e com mais amor !

Hoje deixo esta casa e o bichao ! Quem me conhece acredita quando digo que sairei daqui com o bichao no coraçao, que lhe agradeço por nao ter respondido com vingança, que estou grata pela liçao de respeito e de amor ! Que no fim de contas, ele e as osgas foram as minhas companhias nesta primeira semana em Ubud e que nao tenho absolutamente nada a apontar-lhes ! Que o bichao me perdoe « porque nao sei o que faço » agindo por intermedio do medo…

O que desejo é que o medo nao se apodere de nos, que as nossas atitudes e comportamentos nao se baseiem nesse medo e que trabalhemos toda a nossa vida para substituir esse medo inconsciente por um respeito e amor totalmente conscientes!

Muitos pediram que eu enviasse « luz » de Bali. É precisamente isso que vos envio hoje ! 

Gratidao*

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ketut e a aula de Yoga


Ontem fui conhecer o Ketut Liyer !
Para os que leram o livro ou viram o filme « Eat, pray, love », Ketut Lyer é aquele velhinho desdentado que lê a mao de Elizabeth Gilbert, interpretada no filme por Julia Roberts !

Nao foi assim tao dificil encontra-lo. Ingredientes necessarios : uma bicicleta, um mapa de Ubud, um « inglês » que dê para desenrascar para ir pedindo indicaçoes pelo caminho e muita curiosidade ! Curiosidade em conhecer o verdadeiro Ketut Lyer, curiosidade em saber se ele passa realmente o dia inteiro sentado no chao de um alpendre com um lenço branco em torno da cabeça e curiosidade em saber o que é que ele teria para me dizer (sempre na esperança, confesso, de que o « fim do meu filme » "acabe" tao bem como o de Elizabeth Gilbert).



Assim que entrei, vi-o de imediato ! Pequenino, sentado de pernas cruzadas debaixo do alpendre, lenço branco em torno da cabeça e sem dentes, exactamente como no filme. Foto !



Resolvo sentar-me à sombra e reparo na linda mulher que chegara exactamente antes de mim.  Where are you from ? - pergunta-me. Portugal. You ? I'm from Iran. But I'm living in Switzerland. - responde ela. Oh, from which part of Switzerland ? German part. Oh, I’m also living on Switzerland, but in the french part ! - respondo-lhe.
-        
Com cerca de 15 pessoas à nossa frente, continuamos a conversar e eu continuei a fazer perguntas. Trabalhas na  industria fashion ??? Oh my God, I already love you !  Estavas cansada e atingiste o limite do burnout ??? Oh my God, I love you even more ! Sempre rodeada de gente, mails, telefonemas???  Are you sure you’re not me ? - tenho vontade de perguntar.

E depois falamos de livros e de autores. Louise Hay ? Echkart Tolle ? Did you read his new book ? Oh God you have to read it !!! – diz-me ela. E falamos em como, de ha 2 anos para ca, temos a impressao de que mais e mais pessoas estao a despertar e a virar-se mais para o interior delas proprias ao invés de viverem centradas no exterior !

Foram cerca de 20 minutos inspiradores e pelos quais estou extremamente grata ! De novo, a confirmaçao de que nao estou sozinha neste « despertar » e que pessoas « normais » vivem o mesmo que eu! Nao, nao sou uma freak ! Uff…

Despeço-me dela porque é a sua vez de se sentar com Ketut. Good luck ! – digo-lhe. Apos uns 20 minutos de consulta, ela vem ter comigo num misto de nervosismo e entusiamo e diz-me « He said I will be writing and publishing !! My daughter allways tells me the same, but who wants to know about my life ?!? » Respondo-lhe que me parece que ela tem algo para partilhar com os outros e aperto-lhe a mao desejando-lhe sorte. Chegou a minha vez de « enfrentar » Ketut !

Descalço os sapatos, poso a mochila no chao, e sento-me no alpendre, de pernas cruzadas, à sua frente ! Quando se vira para mim, percebo que chegou a hora e subitamente esqueço-me do que me levou até ali !

E assim ele começa. Observa-me atentamente o rosto : orelhas, sobrancelhas, olhos, nariz, queixo, labios… e vai dizendo «  Your ears make Ketut happy », « Your eyebrows make Ketut happy » and so on… De seguida, pede-me a mao esquerda e diz que vou viver até aos 100 anos, que sou « very smart » e que vou ser « very very rich » e nisto acrescenta « when you get rich, don’t forget Ketut ! » e ri-se mostrando a boca desdentada ! Diz que vê « many jobs » e que terei sucesso em qualquer um deles, que faço as coisas com paixao e que por isso, para mim, tudo tem que ser « quick, quick, quick » (esta acertou em cheio pah !). Tudo isto com muitas interrupçoes ; Ketut esta concentrado no frigorifico que acabou de ser descarregado no seu jardim, deixando em mim um nervoso miudinho « Entao mas isto é assim ? Sera que ele esta suficientemente concentrado no que me esta a dizer ? Ai ! ». Para além disso,  Ketut vai limpando a boca inumeras vezes com um pedaço de tecido para ali jogado e vai dizendo « Sorry, Ketut very tired, very old ! ». « How old are you Ketut «  - pergunto? « 99 years. Ketut very old, very tired, lost his teeths, see ? » e mostra a boca escancarada !

Pede-me para ver as minhas costas e fala uma data de coisas sobre os imensos sinais que trago  no pescoço. Apenas percebo « Very smart, very sucess(ful) ». Agora quer ver os meus joelhos e pernas. Diz que sou saudavel, que vê « no accident » mas que devo ter cuidado quando conduzo « because many accidents to be ». Ai a porra, ja estivemos a falar melhor !

« No husband ? » - pergunta-me ele. « No Ketut, no husband ! » « Boyfriend ? » « yes, boyfriend ! » « Is he good for you ? » « yes, really good Ketut ! » Diz-me que concorda comigo, mas acrescenta : « If divorce, do not sad, do not cry, you will marry again, undestrand ? » « Yes, I understand. » (WTF ?!? Mas o que é que ele me esta a dizer exactamente ?!?)

Vendo que o velhote ja me estava a despachar, resolvi « atacar » com uma pergunta. « Ketut, what about the jobs?  What will I do ? Because I can not find what I love !!!». Ele volta a pegar-me na mao esquerda, dizendo « I see writing, publishing, computor and beauty salon ». Vivo uns efemeros segundos de entusiamo até que a minha memoria a curto prazo me relembra que Ketut havia dito algo semelhante à minha « amiga » iraniana ! Sera que se trata de uma coincidência ? Que nos duas tenhamos um futuro enquanto escritoras ? é que, pelo menos no meu caso, até faz algum sentido ! Ou terei que enfrentar a dura realidade de que o Ketut nao sabe realmente do que esta a falar ?

Em jeito de despedida, Ketut diz-me « Do not cry, do not sad, you will live in harmony ! ».
 
Thank you Ketut ! – agradeço-lhe. Can I take a picture with you ? Please, please - responde-me ! Splash ! Mostro-lhe a foto no ecra da minha maquina e ele responde « Ooooh, look ! Ketut so ugly, you so pretty ! » Obrigada Ketut !!!


*
O que me levou até Ketut ? Essencialmente muita curiosidade associada ao que vira no filme e alguma (pouca !) crença de que o que ouviria me seria util. De facto nao foi util nem o sera, mas a curiosidade foi satisfeita ! Era para mim uma daquelas once in a lifetime thing e nao poderia passar por Ubud e perder esta oportunidade !

Nao pude no entanto deixar de comparar o (pouco !) sentido que as palavras de Ketut tiveram para mim com o (grande !) sentido que tiveram para Elizabeth Gilbert ! Elizabeth Gilbert encontrou Ketut durante a sua estadia em Bali por « mero acaso ». Eu, assim como a maioria das pessoas mulheres que esperaram comigo, estava ali porque havia visto o filme ou lido o livro, na esperança ou mais numa tentativa de que a minha historia fosse igual à de Elizabeth Gilbert.

Lembrei-me da Carol me escrever num mail « (…) às vezes a gente se inspira com a história dos outros e acha que a nossa pode e vai ser parecida. Minha história é minha, e a sua é sua, igualmente linda e inspiradora. » Ora nem mais ! Eu, assim como aquelas mulheres que esperavam comigo (algumas delas traziam mesmo o livro com elas !), estava à procura de « imitar » uma historia que nao é a minha. Por isso as palavras de Ketut nao me fizeram qualquer sentido !  

Pedalei de là com o sentimento de concretizaçao. Um dos meus desejos com esta minha vinda a Bali fora realizado ! Porém, uma nova liçao remoia-me no papo… estarei a seguir os meus proprios passos ou estarei apenas tentando re-construir uma historia inspiradora que nao é a minha ?! Deveria ter colocado esta questao a Ketut ! Queres ver que ainda la volto ?!?

Proxima paragem, Yoga Barn ! A minha P. sairia de là de lagrimas nos olhos ! Que coisa linda de se ver viver ! Mas isso é matéria para outro post ! A aula de yoga yin yang level 1 esperava-me !



A professora, americana residente no Japao, era mais uma das muitas mulheres magnificas que têm cruzado a minha vida ultimamente ! Que inspiraçao !!! Começou a aula com uma explicaçao, dando a entender que as posturas que iriamos realizar eram posturas de base e portanto acessiveis aos iniciados. Uma ova ! Nao houve uma postura que aguentasse até ao fim. Toda eu era dores ; maos, costas, nuca, bacia, pernas e até as visceras me doiam no final da aula ! Estive quase que para desistir…

Ali estava eu mostrando um dos meus padroes de comportamento mais enraizados : nao enfrentar, nao persistir em situaçoes de desconforto. Evitamento total! E percebi que isso acontece em diversas situaçoes da minha vida, sejam elas de caracter social, de caracter profissional ou até mesmo de caracter ludico. Evito tudo o que sao situaçoes novas, porque inevitavelmente passo por momentos de desconforto até que o desconhecido se torne conhecido e confortavel.

Ora aqui estou eu em Bali ! Mais desconhecido do que isto seria impossivel ! Se estou confortavel ? Nao ! Nao domino, nao conheço... e isso da-me uma vontade enorme de desistir, de pagar uma viagem de regresso ja amanha ! O problema é que eu nao desisto ; a minha estratégia é mais a do evitamento e como ja aqui estou, bah… c’est trop tard ! Nao ha evitamento possivel, so confrontaçao ! E so por isso, dê-me ai 10 aulas de yoga que eu pago jà… uma vez pagas, tenho que vir ! Nao ha evitamento possivel ! 

Bali, Ubud, esta-me ensinando !

Voltando à aula de yoga, foi uma autêntica catastrofe ! Eu podia estar no estudio de yoga mais lindo do mundo, eu podia olhar o verde das palmeiras, sentir o vento no meu rosto, ouvir os passaros cantando e ter a professora de yoga mais encantandora do mundo, mas minha mente nao parava e estava longe daquele lugar paradisiaco !

Tou cheia de calor. Doi-me a mao esquerda. Nao aguento esta postura. Tenho que ir aquele bar que tem ligaçao gratuita à internet. Mais posturas ? Entao mais ainda nao chega ? Hoje ele nao vai estar na net ! Talvez estejam os meus pais ! E se nao estiverem ? Ligo-lhes ou nao ? Ai, ja nao aguento os braços ! Que musica é esta ? Esta camisola nao da para estas aulas ! Mais posturas ? Entao mas isto nao é para iniciados ? Depois do bar, o que vou fazer ? Vou para casa ou fico no centro ? Ou vou a casa e depois volto para o centro ? A professora fala de inspirar prana. Eu nem sei bem o que isso é ! Enviar prana para todos os lugares do nosso corpo ? Como assim ? Sentir a energia que nos liga à terra ? Como é que faço para sentir isso ? Tenho que ir ao supermercado !... … …

Nao consegui acalmar a mente nem por um unico segundo ! Sai da aula com o corpo e a mente cansados ! Ora aqui esta algo que devo aprender… acalmar o turbilhao de pensamentos que me invadem a mente, silencia-la e assim poder desfrutar de tudo o que existe fora dela. So isso é real!

Only love is real ! E eu quero muito senti-lo !

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Liçao de piano, liçao de vida, liçao de amor!

Sentei-me no banquinho, de frente para o piano, maos sobre o teclado. 

- Agora vai, toca! - diz-me.
As minhas maos transpiram. 
- Nao sei! - respondo. 
-Vai!
As minhas maos transpiram e tremem. 
- Nao sei como devo fazer! - choramingo. - Nao sei se estou nas notas certas! 
- E o que é que isso interessa? Continua! Vai! 
- Mas nao conheço as regras! - continuo.
Toco simultaneamente.  
- Ai, saiu ao lado esta! - justifico timidamente. 
Toco. (O que é que estarao a pensar de mim? Toco sempre as mesmas notas!). 
Experimento novas notas. (Sera que estao a gostar? Estarei a tocar as notas certas?). 
As maos transpiram. (Nao quero tocar sozinha!). 
- Toca comigo! - imploro. 
- Porquê? - desafia-me.
- Sozinha tenho medo!
- Porquê? Tu vais viajar sozinha!!!
- Porque assim todos sabem que sou eu que toco! - Digo, experimentando uns tons mais agudos e tentando nao pensar no que me acabaram de dizer. (Vou mesmo viajar sozinha!
- Isso, lindo, continua!
Arrisco novas notas. Transpiro.
- Sozinha, nao te podes esconder por detras de ninguém. és obrigada a mostrar as tuas "falhas" mas também todo o teu potencial! - desafia-me de novo. 
(Vou viajar sozinha!!! Nao me vou poder esconder ou apoiar em ninguém! Terei que ser eu propria... nao tenho escolha senao ser eu propria!)
O coraçao acelera.  
- Agora fecha os olhos, nao penses e deixa a tua mao te guiar!
- Nao consigo! - digo mesmo antes de tentar.
- Consegues! Fecha os olhos!
Tento. 2 segundos e volto a abri-los.
- Nao consigo! - digo, tocando ao mesmo tempo.
- Và, fecha os olhos!
Volto a tentar. Desta vez permaneço mais alguns segundos de olhos fechados enquanto toco. (Como é que sei se estou a tocar as notas certas? De olhos fechados nao consigo ver se tenho as maos nas teclas certas!)
Abro os olhos. Verifico. Maos erradas. Corrijo e volto a fechar os olhos. (Porque quero tanto controlar com os olhos, quando posso controlar com o coraçao? Porque nao consigo confiar na minha intuiçao?)
- Isso mesmo, continua! - diz-me.
Continuo. Oso experimentar novas notas. Transpiro. (Sera que as maos estao certas? Isto deve soar horrivel!)
- Lindo Sofia, lindo. Continua!
Paro. Estou cansada. As maos encharcadas de transpiraçao. Olho-a sem saber o que dizer.
- Ouviste-te? Ouviste-te enquanto tocavas de olhos fechados?
Tento lembrar-me, de lagrimas nos olhos! 
- Nao, acho que nao... Nao. Nao ouvi nada do que toquei - respondo, de olhar vazio.
- Porquê?
- Porque... estava concentrada nas notas, a tentar tocar as notas certas! - respondo com sinceridade.
- Vês? Vês o que estas a fazer a ti propria? Vês o que estamos a fazer a nos proprios? O que esta sociedade esta a ensinar às nossas criancas?
Aceno afirmativamente com a cabeça, segurando as lagrimas. Sei exactamente do que é que ela esta a falar!
- Estamos tao preocupados com o que os outros pensam de nos, que esquecemo-nos de nos ouvir a nos proprios!
Sim. Ali estava eu, sentada ao piano, piano aberto para mim, tocando de olhos fechados, preocupada com o que estariam a pensar de mim, preocupada em seguir as regras, preocupada em tocar as teclas certas, com receio de errar... Com tudo isto, os meus ouvidos nao ouviram aquilo que o meu coraçao falava através das minhas maos. Com tanto medo, nao ouvi meu coraçao!

Pedi licença para sair. Nos olhos, lagrimas de gratidao pela liçao de piano que se transformou numa liçao de vida e de amor! Eu, que procuro constantemente provas de que Algo Superior nos guia e de que nada acontece por acaso, tinha ali a minha prova! 

O piano e a professora, colocados ali para mim, canalizaram a liçao que precisava de receber naquele preciso momento! Liberta-te das regras, das leis, do que parece, do que os outros pensam ou esperam de ti... e ouve o teu coraçao! Liberta-te do medo e teras acesso a essa Sabedoria Superior que tanto procuras e que esta sempre em ti!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Em contagem decrescente para Bali!


Falta pouco mais de 1 mês para a viagem e confesso que, cada vez que penso nisso, a frequência cardíaca aumenta e transpiro ligeiramente das maos!

"Agora ja nao ha volta a dar!" digo para mim própria, numa tentativa de afastar esse tal nervoso miudinho que se instala! E consigo acalmar-me por algum tempo até que, por uma qualquer razao, volto a recordar-me de que ja nao falta assim tanto para a viagem e voilà... de novo o coraçao a bater mais rapido e o suorzinho nas maos!

Perguntaram-me ja varias vezes se nao tinha medo de fazer tal viagem sozinha. Se responder com o coraçao, a resposta é "Sim, tenho!" e logo de seguida tenho vontade de acrescentar "E essa é talvez a principal razao pela qual vou fazê-lo!". 

Sim, tenho medo!
Tenho medo das quase 24 horas de viagem de ida, de me perder nos aeroportos nos quais farei escala, de perder a bagagem, de nao chegar a horas aos voos, de nao ler bem os paineis indicativos, de nao perceber suficientemente bem o inglês, de nao conseguir comunicar em caso de necessidade...
Tenho medo nao da solitude, mas da solidao e de entrar em pânico ao saber que nao tenho ali perto ninguém que conheça para me ajudar se precisar!
Tenho medo de me sentir entedeada, sem saber o que fazer do meu tempo livre. Se por um lado é algo de que sinto grande necessidade, por outro, nao sei se sei estar desocupada, sem horarios ou compromissos!
E tenho medo também de regressar sem resoluçoes, sem ideias arrumadas, sem mais certezas do que as que tenho actualmente e sobretudo tenho medo de nao encontrar a fé que procuro!

Depois sei que o medo é o oposto de amor. Que se transporto estes medos com a minha bagagem, estarei a bloquear o fluxo universal! (Obrigada Carol, pelas liçoes de luz!). E sabendo isto, procuro a ainda pouca fé que trago em mim e relembro-me que nao estou so, que Deus ou o Universo ou seja là o que for "has my back", que tudo o que acontecer sera sem duvida o melhor que me podera acontecer, que seja la qual for a experiencia, sera merecedora de uma gratidao profunda!

Vou para Bali à procura de espaço e tempo para me posar, para acalmar o mar turbulento de ideias que invade constantemente a minha mente e silencia-la na esperança de assim ouvir o coraçao! No meio da asafama em que vivo, procurando constantemente responder ao que me é pedido e ao que de mim é esperado, deixei de ouvir o meu Eu superior, perdi a conexao com a minha essência e esqueci o que é viver na autenticidade do que sou! Vou para Bali tentar recuperar um pouco de tudo isso; vou para Bali aprender técnicas para preservar tudo isso no meio da agitada sociedade actual! 

Se é isso que vou encontrar nao sei, mas vou procurar acolher tudo o que vier de braços bem abertos e com o coraçao repleto de gratidao aos kilos! 

Diz que Bali, e sobretudo Ubud, têm uma energia propicia para encontros e respostas! E poderá ser de outra maneira se levar uma bagagem livre de medo e preenchida de amor? Ninguém exige que o consiga fazer, so me é pedido para pelo menos tentar...