Ao entardecer de uma certa sexta-feira e como acontecia ao entardecer de todas as sextas-feiras, eu, o meu pai e a minha mae, chegàmos ao nosso destino de fim-de-semana. Como muitas de vocês sabem, grande parte da minha infância foi passada em terras ribatejanas, numa pequenita aldeola que nem consta do mapa de Portugal e que se chama Foros da Charneca.
Chegamos, abrem-se os portoes, estaciona-se o carro e eu corro de imediato visitar a minha avo Custodia e os bichos. A avo Custodia nao era avo de sangue, mas era avo na mesma; e sendo avo para mim, virou avo para a minha mae, para o meu pai e quando dei por ela, ja a avo Custodia era avo para a vizinhança e até avo para a avo de sangue. Enfim, prossigamos...
Como dizia eu, corri visitar a avo Custodia e os bichos la no monte velho. Os bichos! Sempre fui louca por bichos! E nessa certa sexta feira, aguardava-me uma agradavel surpresa! Uma das ovelhas parira!!! Mas a mae ovelha - "ovelha levada dum corno" na linguagem da avo - rejeitou a ovelhita acabadita de chegar ao mundo! A avo esperou, ficou d'olho na ovelhita ali estendida na erva, observando o comportamento da mae ovelha "levada dum corno". Mas a mae ovelha "levada dum corno" nao quis saber da ovelhita acabadita de chegar ao mundo, que ali ficou sozinha, tremelicando de frio, abandonada pela mae. Entao la foi a avo, com aquela paciência que so ela, salvar a ovelhita do abandono!
Nessa certa sexta-feira, conheci a ovelhita. Era feia, de tao suja que tinha a lã! A avo Custodia explicou; a mae ovelha "levada dum corno" rejeitara a ovelhita e nem sequer lhe lambera o véu, uma fina película que envolve a cria e que é lambida pela mae assim que nasce! Eis a razão da cor acinzentada da ovelhita!
Baptizei o bicho. Chamei-lhe de Joaninha, mas nao me lembro porquê.F icou Joaninha e pronto! E a Joaninha foi crescendo. Arranjou-se um biberão, comprou-se leite em po e a Joaninha foi assim criada, a biberao, por mim e pela avo, entre os gatos e o cao do monte velho!
Ia a Joaninha ja com os seus meses quando nos apercebemos que algo estranho se passava. O bicho mais parecia um cao! Seguia ao meu lado qual cao de guarda quando eu saia do monte velho onde a avo morava e regressava ao meu monte - O Monte da Pedra Branca. E quando estava ja farta do meu Monte, o bicho pisgava-se a correr e parava certinho ao portao do monte da avo. E berrava, berrava, até que lhe abrissem o portao do monte! às vezes escondia-me dela, atràs da grande e velha trepadeira da avo e o bicho chorava; berrava desesperada enquanto eu nao aparecia. E quando me via, apos um momento de desespero, o bicho pulava e dava coices de alegria!
Um dia, andávamos nos - digo eu e a ovelha - a brincar às escondidas quando vi que algo se passava de errado com o bicho! Ao agaixar-se, qual cadela, para fazer a sua mijinha, a Joaninha urinou sangue, sangue puro! Gritei pela avo! A avo correu em nosso socorro! Ficamos olhando a poça de sangue que ali ficara enquanto a Joaninha continuou nos seus pulos enérgicos e divertidos! Eu era miúda, mas percebi imediatamente pela expressão da avo que aquilo nao era um bom sinal!
Na sexta-feira seguinte, como todas as sextas-feiras, corri ao monte velho ver a avo e os bichos! Mesmo antes de chegar ao portão, percebi que algo estava errado. A Joaninha nao berrava de alegria! A Joaninha nao pulava com energia! Nao se via Joaninha em parte alguma! A avo disse-me que nao vira o bicho o dia todo! Meti pés ao caminho e percorri o mato em busca da minha Joaninha! Encontrei-a, estendida entre ervas altas, sem energia, sem alegria, sem vida!
Joaninha, a ovelha que mais parecia um cao, morreu com apenas alguns meses de idade! A avo, eu, o meu pai, a minha mae, os gatos e o cao do monte velho... todos nos sentimos com tristeza a morte precoce da Joaninha!
A avo arranjou explicação para a morte do bicho. A Joaninha levara uma marrada da vaca brava do monte velho; a ovelha, criada entre humanos, gatos e caes, nao reconhecia nos outros bichos qualquer perigo e aproximava-se sempre descontraidamente. Mas a vaca era brava e dera uma marrada na Joaninha que a rebentara por dentro, dai a poça de sangue!
Eu fiz que sim com a cabeça, que aceitava aquela explicação, mas no fundo nao acreditei. Ainda hoje estou convicta de algo que pode parecer inacreditável mas que os anos passados no Ribatejo me ensinaram! A mae ovelha "levada dum corno" rejeitara a ovelhita, ao que nos parecera, sem razão! Eu ca acho que a mae ovelha "levada dum corno" percebeu imediatamente que a sua cria tinha um problema e percebendo as fracas probabilidades de sobrevivência do bicho, resolveu abandona-la de imediato!
A Joaninha sobreviveu mais alguns meses, com todo o meu amor e o da avo e com a compaixão dos gatos e do cao do monte velho que foram os seus companheiros! Talvez por saber que nao iria viver muito tempo, o bicho foi sempre tao meigo, alegre e divertido!
Joaninha, a ovelha que mais parecia um cao, morreu ha uns 15 anos e ainda hoje, em família, falamos nela! Porque ha momentos e pessoas que nunca se esquecem, ha também os bichos, aqueles bichos, que como dizia a avo, sao igualmente almas cristãs!




